a casca - pt. 1

todo mundo mente

e isso não alivia o fato de que sou uma mentirosa

eu não apenas falo algumas mentiras

já disse e repito, sou uma mentirosa

atualmente tudo é uma mentira


desde a placenta

desde o rompimento e o escorrimento do líquido amniótico

desde que me rastejei para fora do útero

eu ainda sinto a primeira respiração mundana

eu disse que era uma mentirosa...

acredite no que quiser

faça o que quiser

desde que faça algum sentido para seus padrões

daí, eu também poderei te dizer que não há bem ou mal

eu sou "deus" e o "diabo"


eu nunca serei capaz de explicar minha existência

um ser tão complexo, jamais pense em narcisismo

apesar das minhas semelhanças com Narciso

o deprezo, obsessão pelo próprio reflexo do ego humano

morrerei de sede e inanição em frente de um maldito espelho?


a resposta até eu sei, pois tudo decidi

eu criei tudo

me rebelei contra mim mesma

vago pelo infinito céu e o infinito submundo

nunca ouse contra mim

você nunca poderá me machucar

você nunca poderá me matar

tais atos apenas eu mesma sou capaz de realizar

como

quando

e onde


fui amaldiçoada pelo meu próprio ritual

me ajoelhei nua em frente ao universo

e com o mais afiado e sagrado Athame

abri o círculo, mas não em minha volta

mas dentro de mim


quando o sangue escorre, não tem mais volta

eu sorri ao mesmo tempo que intensas lágrimas desciam

comuns diriam que não sou mais a mesma

eu fui concebida pela Guardiã dos Mistérios Primais

eu sou assim, não são entidades ou vozes vagantes


você consegue me ver indo para baixo?

eu estou gritando alto mas você nunca escutará

você não tem a audição de Hécuba, a cadela preta

eu agora sou o temor do seu deus 

eu sempre deixo vestígios

mas você nunca irá perceber


eu sei que você está preso na sua carne e senso comum

minhas visões vão além

além das "bordas" que você pode ver do mar

mas sabe, mesmo aqui, na minha forma mortal

eu posso sentir a brilho da lua sob mim em uma noite nublada


minha mente corre épocas e maratonas

eu vi tudo e nada

minha carne é apenas uma casca

eu quero que seja assim

eu quero sentir coisas semelhantes às que você sente


mas o que você ouve da minha boca é demais para seus ouvidos

o que você sente quando toca meus frágeis ossos é desconfortável para você

quando você sente o mínimo do que eu expresso, você se perde

mas quando eu te ouço, eu consigo sentir a intenção das suas cordas vocais


eu não preciso olhar nos seus olhos

eu sei quem você é quando se aproxima de mim com lentes

óculos coloridos ou pálpebras caracterizadas

você quer saber desesperadamente quem eu sou

serei apenas um parasita misterioso no seu cérebro

aquele que você recordará para sempre


você tentou me enganar

mas eu sou a carta coringa do jogo

eu sou tudo e o seu oposto

eu sangro, mas a dor não me afeta mais

você tenta me matar como pode


eu lentamente fechos meus olhos 

enquanto minha cabeça vai se abaixando

é tão doce o silêncio que se espalha

você verá minha pele se deteriorar

minha putrefação irá forçá-lo a me transformar em cinzas


o vento irá espalhá-las para diversos cantos

afetados serão aqueles que pisarem em tais restos

me sinto tão livre

você só me quebrou minha casca

agora estou novamente em todos os lugares


vejo sua pele empalecendo

suas mãos trêmulas

não tenha medo

você é só um bebê

nada mais que isso


eu não vou te quebrar

vou te levar aos que não lamentam

bem, só venha comigo

você vai querer vir

em total delírio e ilusão


você vai estar no ar

amando suas imaginárias asas

mas "anjo", agora você é o palhaço

a sensação ainda é boa

mas me diga, o que vai acontecer quando você cair?

sei que de fato será uma bela canção.


— O. A., 22 de janeiro de 2023.

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